Relações e Comunidade

Quando um Animal de Estimação Morre

Muitas pessoas partilham laços de afecto muito fortes com os seus animais de estimação, por isso, perdê-los pode ser uma experiência emocionalmente intensa. Podemos senti-la como se perdêssemos um membro da nossa família.

Quando um animal de estimação morre as nossas rotinas são alteradas, ficam momentos vazios por preencher na nossa vida diária (por exemplo, levantar cedo para lhes dar de comer ou ir passear à rua depois do jantar). Os animais de estimação dão estrutura e sentido à nossa vida, diminuem os nossos sentimentos de ansiedade, stresse e solidão e aumentam o nosso bem-estar. Por isso, para além da dor de os perdermos, também nos podemos sentir perdidos, sobrecarregados de emoções difíceis de gerir.

Todos respondemos à perda de um animal de forma diferente, mas perder um animal implica normalmente fazer um processo de luto. O luto é uma reacção natural e humana à perda de alguém de quem gostamos e é um processo que tem como objectivo adaptarmo-nos a uma nova realidade, encontrando formas de lidar com o que aconteceu e recuperando emocionalmente.

Embora a dor de perder um animal de estimação possa ser tão intensa quanto a de perder uma pessoa significativa na nossa vida, o processo de luto é diferente. Em primeiro lugar porque socialmente o luto por um animal de estimação não é visto da mesma forma. Não existe o mesmo apoio – por exemplo, a maior parte dos empregadores não nos pergunta se precisamos de tirar uns dias para recuperar e os nossos familiares e amigos nem sempre se mostram disponíveis para nos compreender. Frequentemente, a perda de um animal não é considerada como algo importante por quem está à nossa volta: “Estás assim por causa de um animal?”, “Arranja outro que isso passa-te!”, “Era só um animal, não exageres!”. Esta reacção por parte das outras pessoas pode adicionar mais sofrimento e fazer-nos sentir desajustados, emocionalmente fracos ou envergonhados. Podemos tentar suprimir as nossas emoções e evitar obter ajuda e apoio para o que estamos a sentir – o que só dificulta o processo de luto.

Não existe um calendário ou uma forma certa de fazer um luto. É natural sentirmos emoções mais intensas (tristeza, raiva, culpa) durante os primeiros meses após a morte e que o processo de luto se prolongue durante alguns meses. Mas também é natural que seja mais ou menos tempo. É natural experienciarmos o processo de luto em ritmos diferentes: algumas pessoas vivem o processo de luto por um animal de estimação por fases (à negação, raiva, culpa e tristeza, segue-se a aceitação); outras vivem o processo de luto por “ondas” ou uma série de “altos” e “baixos” emocionais, que tendem a ser menos intensos à medida que o tempo passa. Se sentir que o sofrimento é tão perturbador que o impede de realizar as suas actividades do dia-a-dia, é altura de procurar ajuda. Um Psicólogo pode ajudar.

Experienciar a morte de um animal de estimação faz parte inevitável de ter um animal. Mas existem estratégias que nos podem ajudar a lidar melhor com a perda:

Por vezes, tentamos suprimir as emoções ligadas ao luto, tentamos “esquecer”, e envolvermo-nos constantemente em tarefas para não pensar no assunto. Mas ignorar a dor ou tentar “escondê-la” não nos ajuda, pelo menos durante muito tempo. Para ultrapassarmos a morte de um animal de estimação é necessário recuperar rotinas positivas, ainda que diferentes das anteriores. Aceite que tem de passar pelo processo de luto e leve o seu tempo.

Sentir tristeza, choque, raiva, solidão são reacções emocionais naturais à morte de um animal de estimação. Expressar estes sentimentos não significa que somos fracos. Significa apenas que estamos a fazer um luto por um animal que foi muito significativo na nossa vida. Por isso, não nos devemos sentir envergonhados ou culpados. Chorar pode ajudar a exteriorizar o nosso sofrimento, tal como falar com alguém ou escrever, por exemplo. (Tal como rir ou viver momentos de alegria).

O luto pode ser um processo difícil, mas é suavizado se for vivido com a ajuda de outras pessoas. Falar sobre o que sentimos não aumentará a tristeza, mas permitirá dividi-la com alguém que nos compreende. Embora alguns familiares e amigos possam não entender o nosso sofrimento, certamente haverá outras pessoas que serão empáticas e compreensivas – frequentemente alguém que já experienciou a morte de um animal de estimação pode compreender-nos melhor.

Fazer um funeral, realizar um acto simbólico em memória do animal, criar um álbum de fotografias são formas de expressarmos os nossos sentimentos e lembrarmos momentos de partilha com os nossos animais.

Manter, o mais possível, as nossas rotinas e realizarmos actividades que nos dão prazer (por exemplo, conversar com amigos, cuidar das plantas, cozinhar, ver uma série) pode ajudar. É importante mantermos algumas das rotinas que tínhamos com o nosso animal, mesmo que precisemos de as alterar. Por exemplo, podemos continuar a dar um passeio depois do jantar, escolhendo um percurso diferente daquele que costumávamos seguir.

Quando estamos de luto é fácil esquecermo-nos de cuidar da nossa Saúde Física e Psicológica, mas é ainda mais importante que o façamos. Passar tempo com pessoas importantes para nós, escolher alimentos saudáveis, dormir bem e fazer actividade física pode ajudar-nos a sentir melhor.

Se os sentimentos intensos de dor e perda persistem e interferem com a sua capacidade de realizar as actividades do dia-a-dia, procure a ajuda de um Psicólogo.

Como ajudar uma criança a lidar com a morte de um animal de estimação?

A perda de um animal de estimação pode ser a primeira experiência que uma criança tem da morte e a primeira oportunidade que temos para a ajudar a (aprender a) lidar com a dor que inevitavelmente acompanha a perda de alguém de quem gostamos muito.

A morte de um animal de estimação pode ser uma experiência muito dolorosa para uma criança. Muitas crianças gostam profundamente dos seus animais (são os seus melhores amigos) e, muitas vezes, nem se lembram da sua vida sem eles. Podem sentir-se tristes, zangadas ou sozinhas. Podem culpar-se a elas próprias ou aos adultos pela morte do animal. Podem sentir medo de que outras pessoas ou animais que amam também morram.

Apesar de termos tendência a proteger as crianças da tristeza de perder um animal, não falando acerca da sua morte ou não sendo sinceros sobre o que lhe aconteceu (por exemplo, dizendo que o animal fugiu), essa pode não ser a melhor estratégia. As crianças podem sentir-se ainda mais confusas e assustadas (ou traídas, se descobrirem a verdade). Evite dizer que o “animal foi dormir”, uma vez que as crianças tendem a interpretar o que dizemos de forma literal e podem ficar assustadas com a ideia de “ir dormir”.

É melhor darmos-lhe oportunidade para lidarem com a dor e ajudá-las nesse processo:

Não esconda a sua tristeza, pelo contrário, expresse-a e fale sobre ela abertamente, dando o exemplo à criança. Para além de aprender que é natural que nos sintamos tristes quando perdemos alguém e que devemos falar sobre o que sentimos, é reconfortante para as crianças saberem que não são as únicas a sentirem-se tristes. Se for esse o caso, partilhe com a criança histórias e memórias sobre animais de estimação que teve e que perdeu quando era criança. No caso de não experienciar o mesmo sentido de perda e sofrimento que a criança, respeite a sua dor e deixa-a expressar como se sente livremente. As crianças devem sentir-se orgulhosas de gostarem tanto dos seus animais e sentirem compaixão por eles.

A morte de um animal de estimação pode levantar muitos medos e questões sobre a morte – aceite esses sentimentos e preocupações. Assegure a criança de que nem ela nem os adultos foram responsáveis pela morte do animal e que os adultos estão disponíveis para a ajudar.

Se o animal de estimação tiver de ser eutanasiado, seja honesto com a criança. Explique-lhe porque essa escolha é necessária, que o animal nunca conseguiria melhorar, que é a forma mais justa e menos dolorosa para o animal e que este não se sentirá assustado, mas morrerá de forma pacífica. Dê à criança a oportunidade de passar algum tempo e se despedir do animal da forma que ela preferir. Algumas crianças, dependendo da sua idade e maturidade, poderão preferir estar junto do animal durante o processo de eutanásia.

Juntamente com a criança, crie algo para guardar a memória do animal – uma fotografia, um objecto ou um acto simbólico, por exemplo. Lembre-a que a dor vai desaparecer, mas que as boas memórias do animal vão permanecer.

Dê primeiro espaço e tempo à criança para fazer o processo de luto pelo animal que perdeu. Apressarmo-nos a encontrar outro animal de estimação para a criança pode fazê-la sentir-se desleal ou achar que a dor e a tristeza que sentimos quando perdemos alguém pode ser ultrapassada por uma “substituição”.