A Influência e o Impacto dos Media na Saúde Psicológica (Mitos e Factos)
Nos últimos anos a influência dos Media na sociedade expandiu-se exponencialmente e de modos diversificados. A internet significou um salto gigante na acessibilidade dos Media e na capacidade das pessoas para se envolverem ativamente com os Media. Que, nas suas várias formas moldam, mais do que nunca, o mundo contemporâneo, tendo influência na opinião pública e nas políticas públicas.
No que diz respeito à Saúde Psicológica e aos problemas a ela associados, as representações nos Media são frequentemente de índole negativa e incorreta. Assim, e tendo em conta a influência dos media, estes podem contribuir para percepções distorcidas. Por exemplo, é comum as pessoas que experienciam problemas de Saúde Psicológica serem retratadas como violentas, perigosas e imprevisíveis. De algum modo, é veiculada uma dicotomia entre “nós, saudáveis” e “eles, doentes”. Por outro lado, apenas uma minoria das reportagens inclui histórias na primeira pessoa. Para além disso, as questões relacionadas com a Saúde Psicológica recebem muito menos atenção do que a Saúde Física.
Alguns dos mitos mais frequentes relativamente aos problemas de Saúde Psicológica, representados frequentemente nos meios de comunicação, são os seguintes:
- Mito: Os problemas de Saúde Psicológica são raros.
- Facto: De acordo com o primeiro Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental realizado Portugal, 23% da população tem algum problema de Saúde Psicológica. A prevalência destes problemas em Portugal é das mais elevadas da Europa: um em cada cinco portugueses tem ou teve já um problema de Saúde Psicológica.
- Mito: Os problemas de Saúde Psicológica estão na cabeça.
- Facto: Os problemas de Saúde Psicológica afetam os nossos sentimentos, pensamentos e comportamentos. Para além disso, são muitas vezes acompanhados de sintomas físicos que não devem ser ignorados (por exemplo, perda de sono, de peso ou de apetite).
- Mito: Ou se tem um problema de Saúde Psicológica ou se é psicologicamente saudável.
- Facto: Tal como a Saúde Física, a Saúde Psicológica existe num continuum. Podemos experimentar dificuldades de Saúde Psicológica ou problemas muito graves. Podemos desenvolver um problema de Saúde Psicológica apenas num momento de crise na nossa vida ou ter um problema de Saúde Psicológica que nos acompanha durante vários anos (ou a vida toda).
- Mito: As pessoas com problemas de Saúde Psicológica não conseguem ser funcionais (por exemplo, ter um emprego a tempo inteiro).
- Facto: As pessoas problemas de Saúde Psicológica podem, na verdade, ser tão produtivas como qualquer outra pessoa. É possível aprender a lidar com dificuldades e problemas de Saúde Psicológica. Existem tratamentos e soluções para estes problemas, que nos permitem ter uma vida funcional. No entanto, sem o devido apoio psicológico, e dependendo da gravidade do problema, pode ser difícil para algumas pessoas, nalgumas situações, manterem a sua vida quotidiana.
- Mito: As crianças e adolescentes não têm problemas de Saúde Psicológica.
- Facto: Tal como os adultos ou os idosos, as crianças e adolescentes também podem ter dificuldades e problemas de Saúde Psicológica. Em Portugal, os problemas psicológicos das crianças e jovens têm vindo a crescer (estima-se que 1 em cada 5 crianças/adolescentes manifeste problemas na saúde psicológica). Sabemos, aliás, que os problemas de Saúde Psicológica na infância e adolescência funcionam como um dos principais preditores de problemas de Saúde Psicológica na vida adulta.
- Mito: As pessoas com problemas de Saúde Psicológica são violentas, perigosas, não confiáveis e imprevisíveis.
- Facto: Muitas pessoas violentas não têm história de problemas de Saúde Psicológica e a maior parte das pessoas com problemas de Saúde Psicológica não têm história de violência. As pessoas com problemas de Saúde Psicológica têm muito mais probabilidade de serem vítimas de violência e crime do que perpetradoras de violência e crimes.
- Mito: Não é possível recuperar de problemas de Saúde Psicológica.
- Facto: Os problemas de Saúde Psicológica não são “sentenças de prisão perpétua”. A maior parte das pessoas recupera completamente e vive vidas completas e produtivas. Existem vários tratamentos psicológicos disponíveis e custo-efectivos que podem ajudar as pessoas a lidar com os seus sintomas e problemas.
- Mito: Os problemas de Saúde Psicológica são todos iguais.
- Facto: Existem muitos problemas de Saúde Psicológica diferentes e com diversos tipos de sintomas e consequências.
- Mito: As pessoas que partilham o mesmo diagnóstico experienciam os problemas de Saúde Psicológica da mesma forma.
- Facto: Ainda que um determinado problema de Saúde Psicológica tenda a ser caracterizado por um conjunto de sintomas comuns, nem todas as pessoas vão experimentá-los todos, nem da mesma forma.
- Mito: Os problemas de Saúde Psicológica dos homens e das mulheres são diferentes.
- Facto: De acordo com a evidência científica disponível, homens e mulheres podem desenvolver dificuldades e problemas de Saúde Psicológica.
- Mito: Alguns grupos socioculturais têm mais tendência a experienciar problemas de Saúde Psicológica.
- Facto: Qualquer pessoa pode desenvolver um problema de Saúde Psicológica e ninguém é imune aos problemas de Saúde Psicológica. O contexto sociocultural pode influenciar a forma como a pessoa vivencia os problemas de Saúde Psicológica e como compreende e interpreta os sintomas desses problemas.
A investigação científica tem demonstrado que:
- Os Media constituem uma fonte primária de informação pública acerca da Saúde Psicológica;
- As representações incorretas, negativas ou sensacionalistas dos problemas de Saúde Psicológica veiculadas pelos Media promovem crenças, imagens e estereótipos falsos e negativos, contribuindo para o estigma associado aos problemas de Saúde Psicológica. Este estigma pode dificultar a recuperação destas pessoas, provoca discriminação e cria barreiras à procura de casa, emprego e educação;
- Existe uma correlação entre os retratos negativos dos problemas de Saúde Psicológica veiculados pelos Media e as atitudes negativas do público relativamente a pessoas com problemas de Saúde Psicológica, com um impacto negativo direto nestas pessoas. Por exemplo, num inquérito realizado por uma organização britânica (MIND), metade dos respondentes afirmou que a cobertura dos Media tinha um efeito negativo na sua própria Saúde Psicológica; 34% disseram haver um aumento direto da sua depressão e ansiedade e 22% sentiu-se mais desligado e isolado;
- Existe uma correlação entre os retratos negativos dos problemas de Saúde Psicológica feitos pelos Media e as respostas governamentais a assuntos relacionados com a Saúde Psicológica. As imagens negativas veiculadas pelos Media podem ainda afetar os profissionais de saúde – sujeitos e influenciados pelos mesmos preconceitos que o público geral, apesar da sua formação. Por sua vez, a forma como abordam e cuidam das pessoas que vivem com problemas de Saúde Psicológica pode ser afetada.
A influência dos media é também, muitas vezes, positiva. Porque, por outro lado, reportagens responsáveis por parte dos Media têm o potencial para aumentar a compreensão dos assuntos relacionados com a Saúde Psicológica. Além disso, podem diminuir o estigma e a discriminação experimentados por quem vive com problemas de Saúde Psicológica. Por exemplo, foi demonstrado que a realização de campanhas nos Media que retratem de forma positiva a Saúde Psicológica tem efeitos positivos.
Preconceitos e conceções nos Media
Tal como acontece na população geral, também os Jornalistas podem ter preconceitos e conceções erradas acerca dos problemas de Saúde Psicológica. No entanto, procurando estar devidamente informados e adoptar um conjunto de recomendações e boas práticas, os Media podem:
- Ter um papel pedagógico, informando e influenciando as atitudes da comunidade face à Saúde Psicológica, aos problemas de Saúde Psicológica e às pessoas que vivem com estes problemas;
- Reduzir o estigma e os preconceitos associados aos problemas de Saúde Psicológica;
- Ao facilitar a discussão sobre os problemas de Saúde Psicológica na arena pública, diminuir a vergonha e a dificuldade em procurar ajuda das pessoas que experienciam problemas de Saúde Psicológica;
- Divulgar a mensagem de que existem tratamentos eficazes para os problemas de Saúde Psicológica e, deste modo, melhorar os cuidados prestados e a qualidade de vida das pessoas que têm problemas de Saúde Psicológica.
Tal como existe noutras áreas, como a política ou o desporto, por exemplo, seria igualmente desejável que existissem Jornalistas especialistas na área da Saúde Psicológica.
Assim sendo, reportar os problemas de Saúde Psicológica de forma correta, justa, verdadeira e compassiva pode realmente fazer a diferença. Isso é aplicado não só para a comunidade, como especificamente para as pessoas que vivem com problemas de Saúde Psicológica e os seus familiares.
Assim, seria desejável que os Media tratassem, de forma igualitária, a Saúde Psicológica como outro assunto de Saúde ou social. Particularmente, começar a tratar os problemas de Saúde Psicológica como tratam os problemas de Saúde Física. Por exemplo, os Jornalistas devem estar tão motivados para escrever sobre depressão como sobre cancro da mama.
Influência dos Media
Diversos estudos confirmam que as campanhas de educação sobre Saúde Psicológica divulgadas através dos Media, documentários que incluam retratos adequados dos problemas de Saúde Psicológica e histórias contadas na primeira pessoa, são formas eficazes de combater o estigma e a desinformação do público sobre problemas de Saúde Psicológica. São especialmente relevantes retratos positivos em que celebridades expõem e falam abertamente sobre problemas de Saúde Psicológica. Por exemplo, na Austrália, as campanhas de consciencialização pública da organização Beyondblue, que utilizaram a revelação de problemas de Saúde Psicológica por parte de indivíduos amplamente reconhecidos pelo público, tornaram a depressão mais aceite.
É ainda importante que, quando existem histórias e reportagens que incluam temas relacionados com a Saúde Psicológica, os Media trabalhem em conjunto com Psicólogos. Devendo, também, recorrer à publicação de resultados de investigação científica. Por exemplo, o cancro, evoluiu de uma doença altamente temida e sobre a qual existia grande desconhecimento, para uma doença associada a um conhecimento e compreensão do público muito maiores. Esta alteração de perspectiva foi feita, também, através de uma narrativa dos Media associada à investigação, ao tratamento e às histórias de sobreviventes.
Outros recursos: